Nestes meses em que não tem oposição – apenas a provocada pela maldita nicotina – José Sócrates tem vindo a testar o que será o seu estilo até às próximas legislativas.
O caso mais interessante de analisar é o de Ana Jorge, na Saúde. Tirando a parte de estar bem assessorada e aconselhada, a ministra é uma conhecedora profunda do sector, mulher atenta, com ideias próprias e muito profissional. Quem a conhece – antes de ser ministra – diz maravilhas.
Ao escolhê-la, o PM neutralizou a ala esquerda do PS, nomeadamente Manuel Alegre, de quem Ana Jorge foi apoiante, e que nunca mais disparou sobre a área como acontecia com Correia de Campos.
Depois, eliminou um ego. O ex-ministro adora olhar para o umbigo e julgava-se o supra-sumo da Saúde. Queria deixar marca e ficar na história. E isso é péssimo na actualidade política, pois só o tempo é que determina quem não passa de nota de rodapé.
Assim, a opção foi correcta. A ministra saiu de cena, sacudiu os conflitos e entrou na onda que marcará este ano para Sócrates.
Sem praticamente mudar uma linha das políticas do antecessor, dialogou com os diversos “players”, arejou a casa, suavizou a imagem e abomina o conflito, apesar de ser dura quando é preciso.
Ana Jorge – exceptuando o erro da semana passada que deu problemas aos assessores do PM – é a face mais visível deste guterrismo de Sócrates.
Mais diálogo, mais humildade – sem medo de pedir desculpa, como no caso voo para Caracas – mais suavidade. Mas sem perda de controlo.
PS: Este artigo foi publicado no OJE, dia 16 de Maio
segunda-feira, 19 de maio de 2008
O guterrismo de Sócrates
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
O animal feroz voltou
Na segunda fase do seu mandato, José Sócrates poderia ter um problema que a oposição e os seus conselheiros amadores não tiveram a habilidade de aproveitar.
Aqui escrevi que Menezes tinha uma mais valia face a Sócrates: o seu lado genuíno. O fácil contacto com as pessoas e a capacidade de emocionar e de se emocionar, sem esquecer a sua argúcia e capacidade política.
Mas numa “semana catastrófica”, como escreveu Ana Sá Lopes, para a sua imagem, provocada pela agência que contratou, Menezes tornou-se o homem de plástico, a marioneta, e foi uma vez mais trucidado pela imprensa.
Sócrates, tinha, então, fraquezas não exploradas pela oposição: ser frio, distante, ter laivos de ditador (o que para o povo português até é positivo), irrita-se e não ouvia as pessoas.
Numa manobra, mais uma, muito bem articulada, Sócrates colocou na capa do Expresso uma foto de Correia de Campos e a frase: «os portugueses começam a compreender a minha política de saúde» (tudo menos um testemunho de saída).
Fez contar que o titular da Saúde estava reforçado e não era remodelável e que S. Bento o ajudava, e o DN ainda contava que um assessor de imprensa do PM, profissional, estava no próprio gabinete do ministro para também o ajudar a recuperar.
Depois, com tudo previamente pensado, aceita a demissão do ministro porque, nas suas palavras, «compreendeu a preocupação das pessoas, nomeadamente com o serviço nacional de Saúde». O tal homem frio, distante, irritado, ganha o lado humano e ganha outra vez o controlo da agenda política.
O animal feroz voltou. E o poeta foi amansado.
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