sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Estágios à borla? Concordo.

Estágios à borla? Concordo.

Praticamos no Grupo YoungNetwork? Não.

É legítimo o Carga de Trabalhos não publicar anúncios sobre estágios não remunerados? Claro que é.

1. Concordo porque gosto da liberdade de escolha. Se há alguém que aceita trabalhar sem receber remuneração, como estagiário ou noutra função qualquer, e se uma entidade aceita que ela trabalhe sem receber, é porque temos negócio. As duas partes livres, não obrigadas a nada, aceitam ter essa relação contratual. Ambas entendem que ganham nesta troca. Se não entendessem que ganham agora ou no futuro, não havia troca. É assim em qualquer troca. Só há troca, quando as duas partes entendem que ganham. Atenção, que haver troca não tem nada a ver com ser justo ou injusto. Eu posso ter uma arma apontada e, em troca pela vida, dou o meu relógio e a minha carteira. É justo? Não. Mas foi uma boa troca para mim. A minha vida custou um relógio e uma carteira. Barato.

2. Há uma natural predisposição para impor medidas que se pensam justas e que muitas vezes se tornam desastrosas. Salário mínimo? Também discordo. Regras rígidas no Direito do Trabalho? Discordo, porque dificultam o acesso de quem não tem trabalho ao mercado de trabalho. Quem sabe que tem dificuldade de prescindir de pessoas quando for necessário, tem a cautela de não contratar tantas como gostaria na bonança (aqui não seguimos muito esta regra, mas poderemos ter que a rever se e quando os crescimentos descerem dos dois digitos). Já criámos no grupo YoungNetwork mais de 75 postos de trabalho (um número modesto, mas que multiplicado por vários milhares de empresas no país inteiro, já tem significado). Se de hoje a amanhã tivermos que voltar a ser 40 ou 50, ainda ficamos com um saldo positivo de 40 ou 50 postos de trabalho criados. Parece-me perfeitamente legítimo e positivo para o país. Até porque as empresas não crescem no número de pessoas até ao céu.

3. Agora, este argumento da obrigatoriedade de se pagar estágios, para quem o defende, devia ser estendido. Por exemplo, na política. Não devia ser permitido fazer trabalho para partidos de forma gratuita, nem participar das equipas das campanhas para primeiro-ministro ou para presidente da República sem contrapartida financeira. Perguntem ao presidente Cavaco Silva quanto pagou a Alexandre Relvas para o ajudar na coordenação da sua campanha para presidente. Estamos claramente perante uma situação de "exploração" do administrador da Logoplaste. Outro exemplo, nos pro-bonos. Porque não limitar a possibilidade de se oferecer o serviço? As agências ou outras empresas deveriam ser proibidas de o fazer, para que não sejam "exploradas". Podíamos continuar uma longa lista de proibições que se deveriam fazer para tornar a coisa mais justa, segundo os cânones mais tradicionais.

4. Porque é que não temos estágios não remunerados? Porque gostamos do toma-lá-dá-cá imediato. Quem entra, vem porque faz falta. E vem para mostrar que pode ser válido. E vai ser pressionado para mostrar o seu valor e ser útil à empresa. Achamos que receber uma remuneração joga bem com esta nossa mania de exigir.

5. O Carga de Trabalhos é um site de referência, e que deve reger-se pelos seus próprios critérios. O meu apoio à decisão deles é total.

7 comentários:

Rita Branco disse...

Totalmente de acordo.

Anónimo disse...

Eu discordo, em certa medida.

"Se há alguém que aceita trabalhar sem receber remuneração, como estagiário ou noutra função qualquer, e se uma entidade aceita que ela trabalhe sem receber, é porque temos negócio. As duas partes livres, não obrigadas a nada, aceitam ter essa relação contratual."

Isto parece-me ingénuo e não tem em consideração o seguinte: o poder de influência de quem aceita trabalhar sem ser remunerado e da entidade empregadora não é bem o mesmo. Logo, não se pode falar em troca. Não há equilíbrio entre as duas partes.

Eu também gosto da liberdade de escolha e louvo quem escolhe mandar à fava ofertas de emprego não remunerado. (mesmo quando isso implica fazer grandes sacrifícios) Eu não fui capaz de o(s) fazer.

Bjs

CE

Anónimo disse...

Caríssima CE,

E desde quando há relações em que ambas as partes têm o mesmo poder?

Em todas as relações (profissionais, pessoais...), o poder é desiquilibrado, e ainda bem que assim é ou não teria graça nenhuma. O engraçado e o que estimula, é a troca de poderes, é o evoluir da relação e a possibilidade disso acontecer e os papéis irem-se invertendo ao longo do caminho.

Bjs

Rita Branco

Anónimo disse...

Completamente de acordo. Mas mantenho a minha vénia a quem é capaz de recusar "ofertas" de emprego não remunerado. Se existe formação e competência, esta tem de ser reconhecida e recompensada. (ainda que monetariamente seja uma forma redutora de o fazer)

E se não atendermos às questões legais (que em boa hora o Carga de Trabalhos se lembrou de contemplar ao retirar os anúncios que não respeitam a legislação laboral), temos sempre as questões morais e de consciência. E essas, revelam sempre um bocadinho do que cada um de nós é feito!

Bjs grds p tds com saudades da CE*

Tarzan disse...

Excelente post!

Luis Silva disse...

Caro João,
Não posso concordar com estágios não remunerados. É claro que um licenciado de comunicação social, por exemplo, para enriquecer o seu CV, está muitas vezes disposto a exercer, durante algum tempo, uma actividade profissional não remunerada. Mas há aqui um profundo desequilíbrio de poder, se me permites a expressão, entre a entidade que emprega, que utiliza uma táctica que é usual num mercado em que há excesso mão-de-obra, e o candidato que, para ganhar experiência, vê-se sujeito a trabalhar sem receber. Claro que há aqueles que podem recusar e esperar melhor sorte. São os que têm uma “almofada” social – i.e. suporte familiar – que lhes permite esta decisão. Graves são os casos dos licenciados que não tendo a cobertura referida não podem recusar, se quiserem continuar no circuito (para o qual se prepararam e investiram tanto durante o seu percurso académico). Já referi aqui que trabalhei com estagiários, neste meio da consultoria em comunicação, que trabalhavam gratuitamente das 9h30 às 18h00, para uma consultora, e depois iam buscar o rendimento que lhes permitia pagar despesas tão básicas, como a alimentação e transporte, a um part-time nocturno. Isto é escravidão. Podem jogar com as palavras e enunciar o carácter áspero deste mercado laboral. Mas esta é a realidade, infelizmente.

Quando ao argumento da obrigatoriedade de se pagar estágios ser estendido também ao trabalho de âmbito político, desculpa João, mas parece-me um argumento fraco. Primeiro porque a participação na política é feita – ou, pelo menos deveria ser – muitas vezes pela convicção de que a mesma é um instrumento que pode mudar a sociedade (seja no plano global, nacional, local...). A participação política está no plano da defesa de valores. E muitas pessoas estão dispostas a ceder o seu tempo gratuitamente para defender algo que transcende uma actividade meramente comercial (como é o âmbito da actividade de uma consultora em comunicação). Por outro, lado, como bem sabes, pessoas como Alexandre Relvas podem muito bem exercer de forma gratuita funções de consultoria na área política, não só porque acreditam que é sua forma de contribuir para uma sociedade melhor, mas também porque têm um respaldo financeiro que advém das suas legítimas actividades privadas.

Um abraço.

jd disse...

Caro Luís,

obviamente respeito a opinião, mas não concordo.

A troca não tem de ser pecuniária. E a troca não tem (potencialmente) de beneficiar ambas as pessoas ao mesmo tempo.

Estou disposto a trabalhar de borla para pessoas como o Seth Godin. E se ele aceitar, acredita que o valor do tempo que ele disponibiliza valerá mais do que o trabalho que eu posso fazer de borla para ele.

Em relação à política, acho que a tua perspectiva é lírica sobre as boas vontades de quem anda na política. aliás, as "jotas" está cheia de jovens idealistas, que estão lá de borla, sem esperar nada em troca no futuro ;)

abr. e obrigado pela participação na discussão. O mesmo é válido para a Rita e a CE.