quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Estagiário ao mar


No nosso Grupo temos uma política sobre estágios: só entram estagiários se forem necessários e houver perspectiva futura de integração.

Quando os recém-formados entram na empresa há sempre trabalho, muito trabalho, que os espera. Pagamos-lhes, pouco, e investimos na sua formação. Sabemos à partida que nem todos vão vencer aqui. Quem passa o primeiro teste sabe que a boa nova traz outras responsabilidades e outros desafios.

Tentamos seleccionar candidatos com potencial, mas nem sempre acertamos. É difícil perceber por entrevistas se ele serve. Precisamos de o testar em ambiente de combate.

Queremos que estas pessoas evoluam e nada como o trabalho de campo para o fazer. Um consultor sénior supervisiona e acompanha o estagiário, entregando-lhe um conjunto alargado de tarefas.

Em troca queremos vontade, suor e talento.

Há 15 dias aconteceu um facto inédito na agência. Um recém-chegado para cumprir estágio, recusou-se a ir buscar algumas revistas porque, alegou então, "não tinha andado a estudar quatro anos para ir buscar revistas".

Sabemos que somos uma empresa jovem, informal, irreverente, mas não vivemos no caos. Há ordem e hierarquia.

Tive conhecimento da situação por esclarecedor email do director dessa unidade de negócio, que aproveitou para explicar este enquadramento a toda a equipa.

A imaturidade está cara. Soube que o jovem marujo teve cinco minutos para recolher os pertences e abandonar o navio.

Mano-a-mano

Rouba o livro à mulher. Lê à socapa, nao passa da 45. Mas já percebe que gosta. Talvez uma escrita cuidada em demasia, muito adjectivada, virada para a crítica intelectual. Sevilha, Maestranza, 1915, dia de mano-a-mano: Joselito enfrenta Belmonte*. Tradição contra irreverência. Faena de doutrina contra devoção temerária. Claques organizadas por matador. Na arena, verónicas e pases de pecho na capa, bandarilhas no intermédio e derechazos e naturais na muleta para completar “o tércio da morte”. O estoque direito ao touro para coroar a faena. A arena aos pés do leitor. Olé Miguel!

*Blogografia: Marca de morte.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

É a religião, estúpido!

Há pouco tempo atrás, o João Duarte fez um post sobre religião.
Por extraordinário que pareça, esta semana a “Economist” (sempre indispensável), fazia capa com “the new wars of religion”.
Hoje, uma das maiores religiões, a muçulmana “has a bloody divide” (desta vez são os Sunitas e Xiitas, já foram os católicos e protestantes). Os católicos têm um Papa que quer reforçar as defesas do bastião do cristianismo, no seu pensamento, a Europa.
Porque, como sabemos, o Velho Continente não é mais do que cultura grega, leis romanas e religião cristã.
Mas é curioso de reparar como a política externa do Vaticano tem como objectivo prioritário a China: que pode ser o maior país católico do mundo, mas também pode ser o maior país muçulmano do mundo. É um tabuleiro onde se vai jogar o futuro.
A “Economist” cita a carta aberta de Ahmadinejad, presidente do Irão, a Bush: «whether we like it or not, the world is gravitating towards faith in the Almighty». Vindo de quem vem, desta vez tem de se reconhecer alguma credibilidade.

PS: Há uns tempos atrás, no OJE, onde escrevo às sextas-feiras, fiz um artigo que tinha como título «A tentação de Gore». Onde falava da derradeira oportunidade de Al Gore avançar para a corrida à Casa Branca. Duas semanas depois, a capa da “Time” era «The last temptation of Gore». O que quero dizer com isto é que este blog, que ainda é recente, para lá de se estar a tornar uma referência em termos profissionais é feito por pessoas atentas e que não estão apenas enredadas na mesquinhez dos assuntos de agenda. Os mais atentos dificilmente são medíocres. Os blogs atentos, assim, nunca são medíocres.

Como se engana um país

Uma das coisas que mais confusão me faz, é ver como um País é enganado por uma pessoa. Argentina era Péron, hoje é Kirchner.
Cristina Kirchner fez o que quis, o que me deixa muito má imagem da sociedade civil argentina, da sua força e capacidade de reivindicação.
Cristina não foi a um debate, não deu uma entrevista, ideias só por sinais de fumo e apenas espalhou por todo o País outdoors inócuos: “Sabemos quais são os problemas. Sabemos o que fazer”. Segura pelas sondagens.
Acho que os argentinos a pouco e pouco vão ver os problemas e vão perceber, tristemente, que os Kirchner não vão saber o que fazer

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Um barrete que de nada serve

Consecutivamente na mesma semana - primeiro na Briefing, depois no Expresso - surgiram as previsões de facturação de várias consultoras de comunicação para 2007.

Das cinco repetentes nos quadros das duas peças, quatro apresentam facturações diferentes de um meio para outro, recordando eu que os dados foram, em ambos os casos, fornecidos pelas próprias agências. (por uma questão de honestidade intelectual, refira-se que em dois dos quatro casos as diferenças são pequenas - na ordem dos 100 mil euros).

Mas descontando esta curiosidade, mais relevante é saber que na maioria dos casos estas facturações são delírios das agências. Não são reais e contrariam até o que muitos dos citados nos artigos dizem em conversas privadas.

Em segundo lugar, as facturações das agências podem ter tanta coisa lá dentro que não faz sentido pensar nelas como referência, quanto mais de "absoluta prioridade", como diz Alexandre Cordeiro, presidente da APECOM. Na verdade e ao contrário dos grupos de publicidade em que o grosso da facturação vem do core, nomeadamente design, campanhas, produção, compra de espaço, etc., na comunicação institucional existem ferramentas que se afastam da consultoria e assessoria, mas que no bolo total contam, percentualmente, muito, e que enviesam a leitura das facturações. Falo de eventos, custom publishing (revistas, newsletters), produção, e até compra de espaço.

Prefiro não entrar na charada dos números. Como expliquei: muitos não são reais e os que são não têm relevância.*

Sei que o Grupo YoungNetwork está entre as maiores consultores de comunicação. Em número de clientes. Em número de consultores. E, provavelmente, em facturação também. But who cares? Ninguém nos contrata por isso.

* Nota: Não têm relevância em termos de análise comparativa. No que diz respeito ao negócio de cada um, claro que têm relevância.

Dossier Consultores de Comunicação (II)

Alexandre Cordeiro, presidente da Associação, deu uma entrevista, integrada no Dossier da Briefing, e deixou as seguintes mensagens:

- A mais-valia de pertencer à APECOM é a "adesão automática a códigos de ética e de conduta...";
- Pressão nos honorários das agências;
- Falta de disponibilidade de recursos humanos;
- Clientes com orçamentos pequenos;
- Prioridade absoluta na divulgação da facturação das agências;
- Transparência (na divulgação das contas) já está a ser tida em conta na hora das empresas contratarem os serviços de uma consultora;
- O mercado define o preço;
- Existência de concursos não é obrigatória.

Dossier Consultores de Comunicação (I)

Li hoje o dossier que a revista Briefing fez sobre consultores de comunicação.

O sector visto pelas agências, e relatado na Briefing:

- Acabou o choradinho de muitas consultoras. O mercado define o preço;
- Alguns, poucos, querem regulação (para concursos e preços);
- A assessoria mediática ainda é dos serviços mais procurados;
- A consultoria estratégica está em crescendo;
- Jornalistas económicos (Jornal de Negócios e Diário Económico) referem que as agências ajudam a organizar a informação, e que cabe aos jornalistas enriquecer a notícia ou procurá-la para além dessa fonte;
- Clientes têm recursos escassos que tolhem a criatividade;
- Há contas ganhas em concurso e outras por adjudicação directa;
- O modelo de remuneração vigente basea-se em horas e valor por tipo de recurso, em linha com outras disciplinas de consultoria;
- Dificuldade em contratar recursos humanos qualificados;
- Existe espaço para agências especializadas;
- Há promessas de internacionalização, mas não concretizadas, para já.

O que eu não li desta vez:

- O Press Release "morreu";
- Haverá concentração no sector.

Citados na Briefing


do fundo da Comunicação citado pela Briefing na passada quarta-feira.

Um em cada dez

Diz-me um amigo - Francisco Froes, presidente da AMBA - Associação de Antigos Alunos dos MBA da Universidade Nova - que o importante é falar com os CEO's das empresas. Porquê? Porque decidem, e melhor ainda, em cada dez, nove são bons e um não presta, não tem caracter, faz género de cobarde, ou, simplesmente, é um pateta.

Serve este lema do Francisco, para situar a minha aventura de hoje de manhã. Reunião marcada (ou melhor re-marcada) na terça ou na quarta para hoje às 9 da manhã numa empresa. Assunto: New Business.

Saio de casa cedo, passo antes pela agência, para "checar" de novo rua e número do potencial cliente. Enfio-me no carro às nove menos um quarto, e chego ao Saldanha às nove em ponto. Decido estacionar no Monumental e estou no escritório do potencial cliente às 9:10, pronto para a reunião.

Cumprimento a senhora da recepção, que me diz para aguardar na sala. E logo, de seguida, surge uma outra senhora, com o discurso engatilhado: "O doutor já não o vai poder receber. Tem uma reunião às 10."

Apesar de surpreendido, respondo com desalento: "Penso que ainda há tempo..."

Sendo de pronto interrompido: "Não. A reunião é fora, e o doutor tem de tratar antes de outras coisas."

"Bom dia.", termino. O que mais haveria de dizer.

Sem nenhuma sugestão de re-marcação, e pela eventual "birra" pelos dez minutos, percebo que não há intenção de ter a reunião, o que é mais esquizofrénico se pensarmos que foi a empresa que nos contactou.

Antes estas situações sabiam-se pelo passa-palavra (que não vai deixar de acontecer) e chegavam a algumas pessoas. Agora escrevem-se num blog e chegam a muita gente. A comunicação da empresa, a forma como interage com todos os stakeholders (não só clientes) é muito importante para a reputação de uma empresa. A maioria das empresas não o percebe. Talvez esta nos tentasse contratar para o executar.

Com este meu post levanta-se uma crise de comunicação nessa empresa. Por cá, sei que estatisticamente as minhas próximas nove conversas serão com bons CEO's.

PS: Dedico este meu post a Pedro Passos Cunha, da Ray Human Capital.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Táxis: os nossos amigos

Hoje vou falar de números importantes e mal explorados pela comunicação e publicidade.
Tudo porque li na “Meios e Publicidade” que uma nova empresa faria uma parceria com 350 viaturas da Teletáxis, dirigida pelo sempre simpático Ernesto Castanheira. Por achar positiva a iniciativa, apesar de não ser original, deixo números para ajudar a perceber esta indústria.

.Em Lisboa, só aqui, existem 3560 táxis licenciados.

.Vamos multiplicar por 20 passageiros dia/média de cada viatura e temos mais de 70 mil passageiros por dia (contas minhas, porque as da ANTRAL – bem dirigida por Florêncio de Almeida, diga-se - a maior associação do sector, até são superiores).

.Multiplicamos 70 mil/dia por 30 dias do mês e temos mais de 2 milhões de utilizadores.

.Multiplicamos por 12 meses do ano e temos mais de 24 milhões de pessoas a andar de táxi.

Números muito interessantes – contabilizados por mim, portanto, não são definitivos – e que são informação para o mercado. Na área da comunicação política, como muitos sabem, esta indústria foi sempre prioridade para mim. Por causa do “buzz”. Andem de táxi e percebem…

Mantenho excelentes relações com o sector, mas este ramo de actividade tem um problema. Precisa de muito trabalho para se tornar sexy. Daí que as receitas de publicidade dos táxis são mínimas e dão trabalho. E a comunicação e a publicidade, no meu entender, estão distraídas.
Mas com estes números, os táxis só podem ser nossos amigos.

And the winner is…

É já amanhã que estreia, em 55 salas do país, o tão anunciado filme de João Botelho, Corrupção. Ficção inspirada no livro “Eu Carolina” este filme português é já vencedor no número de cópias registadas e irá passar em mais salas que êxitos internacionais como Harry Potter ou O Código de Da Vinci

Com toda a polémica envolta na rodagem e pré-lançamento do filme, não há quem não tenha ouvido falar nele.

O filme conta o envolvimento sentimental, e não só, de um presidente de um clube de futebol e de uma mulher, mas o seu realizador desmente ter querido estabelecer quaisquer relações com Pinto da Costa e a sua ex-namorada, Carolina Salgado.

«Escrevemos uma história que tem um bocado do livro e outro que não tem nada. O cinema é mentira, nunca é verdade. Não morre ninguém, só nos filmes porno é que se faz sexo, o resto é tudo a fingir. O que é verdade é a relação de um filme com os espectadores», salienta o cineasta numa das muitas entrevistas que deu.

Verdade ou não, este filme aparece no ano certo. 2007 é sem dúvida o ano da Corrupção em Portugal. E tem o mérito de trazer para a agenda este tema, que até ao final do ano ainda dará muito que falar.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

É GOOOOOOOOOOOOOOLOOO!

No Sinos deste ano só (!) 92 trabalhos foram premiados. Concorreram 71 agências, com 659 trabalhos (mais detalhes na Briefing). Como previ, depois de apurado estudo de probabilidades (ver post), a Golo Publicidade arrecadou pelo menos um prémio.

Tudo menos ateu

A religião, foco de tensão em muitos pontos do globo, é o que mais ordena. Desengane-se quem pense que ser homossexual é a grande desvantagem para ser eleito nos Estados Unidos. Neste país, pior do que ser candidato gay é ser candidato ateu. Segundo um estudo da Gallup, feito em 1999, conclui-se que o estatuto dos ateus é hoje igual ao dos homossexuais no final dos anos 50.

Na sondagem efectuada perguntava-se aos americanos se votariam numa pessoa bem habilitada:

- se fosse mulher: 95% responderam sim;
- se fosse católica: 94%;
- se fosse judia: 92%;
- se fosse negra: 92%;
- se fosse mórmon: 79%;
- se fosse homossexual: 79%;
- se fosse ateia: 49%.

Na corrida de 2009 à Casa Branca não há nenhum candidato agnóstico ou ateu. Três “urras” à tolerância religiosa do país mais beato da Cristandade.